- por Marcos Gimenez
- on 04/06/2025
Em segunda rodada de negociações, Moscou entrega documento com 12 exigências
Em Istambul, troca de prisioneiros e corpos avança, mas cessar-fogo segue refém de condições difíceis para Kiev.
Falando Sério!
Enfraquecida militarmente, Ucrânia tem margem quase nula para resistir.
As negociações de paz em Istambul (02/6/2025) consolidaram a estratégia russa de paz: enquanto avançava a maior troca de prisioneiros da guerra (1.000 de cada lado) e a repatriação de 12.000 corpos, a Rússia apresentou um memorando com exigências que equivalem à capitulação estratégica da Ucrânia.
O documento, obtido pela RIA Novosti, exige neutralidade militar, reconhecimento internacional de territórios anexados e limite das Forças Armadas ucranianas; condições rejeitadas por Kiev como “rendição disfarçada”. Para analistas, a frágil posição ucraniana no campo de batalha e a pressão de Trump por um acordo rápido deixam Zelensky encurralado entre a devastação e a humilhação diplomática.
O Memorando Russo: Doze Anéis da Rendição
O documento entregue por Moscou estrutura-se em três eixos:
Ancoragem Territorial:
Reconhecimento internacional da Crimeia, Donetsk, Luhansk, Zaporíjia e Kherson como território russo, incluindo áreas não totalmente controladas por Moscou. Exige retirada imediata das tropas ucranianas dessas regiões (Opção 1) ou pacote de medidas estratégicas (Opção 2):
• Fim da ajuda militar ocidental
• Proibição de inteligência estrangeira e satélites
• Eleições em 100 dias sob vigilância russa.
Controle Militar:
• Teto permanente para efetivos das Forças Armadas Ucranianas (AFU)
• Ucrânia como nação não nuclear e neutra (veto à OTAN)
• Dissolução de brigadas nacionalistas e proibição de “glorificação do nazismo”, narrativa usada para justificar a defesa de Donetsk e Luhansk.
Proteção Cultural:
• Russo como língua oficial em regiões ocupadas
• Restrições à Igreja Ortodoxa Ucraniana
• Anistia para colaboracionistas pró-Rússia.
Tradução Geopolítica:
Troca de Prisioneiros: Vitória Humanitária, Derrota Estratégica
O único avanço real foi a troca de:
1.000 prisioneiros (feridos graves e soldados <25 anos)
12.000 corpos (6.000 repatriados por cada lado)
Mas até aqui há simetria:
Trégua de 2-3 Dias: Ação Humanitária
A proposta russa de cessar-fogo localizado:
Visa permitir coleta de corpos em zonas de avanço russo (ex.: Donetsk)
Beneficia a Rússia:
• Melhora a imagem de Putin com gesto nobre
• Congela tropas ucranianas em posições insustentáveis
• Dá tempo para reorganizar artilharia e drones.
Zelensky rejeitou: “É uma pausa para eles respirarem, não para enterrarmos nossos filhos”.
Ucrânia Encurralada: Sem Território, Sem Tempo, Sem Aliados
A margem de manobra de Kiev é mínima devido a três fatos brutais:
Colapso Militar:
Exército opera com “duas velocidades”: 30 brigadas de elite vs. 100 formadas por mobilizados à força, sem treino.
Perda de 5 soldados para cada 1 russo em avanços simbólicos (ex.: região de Kursk)
Escassez de munição: Europa fornece 30% do prometido; EUA paralisaram envios.
Pressão de Trump:
Exigiu acordo “em 100 dias” após posse (20/1/2025)
Ameaçou cortar ajuda se Kiev rejeitar negociações
Sugeriu aceitar neutralidade ucraniana: “A OTAN não vale uma Terceira Guerra”.
Realidade Territorial:
Rússia controla 20% da Ucrânia; em Donbas, avança 2 km/semana, lento, mas irreversível com a atual correlação de forças.
Conclusão
A Paz dos Cemitérios
As negociações de Istambul confirmaram o que o campo de batalha já grita: a Ucrânia perdeu a capacidade de expulsar a Rússia. O memorando russo não é uma proposta, mas uma certidão de óbito geopolítico. Um ultimato para Kiev aceitar a amputação de seu território em troca de uma paz vigiada.
Os “gestos humanitários” (troca de corpos e jovens prisioneiros) são cortinas de fumaça para ocultar três verdades duras:
A Rússia negocia. A balança pende para seu lado, pois hoje, controla o ritmo da guerra.
O Ocidente abandonou a vitória ucraniana: a UE não substitui os EUA e, Trump quer um acordo rápido para voltar a falar com Putin.
A única escolha real de Zelensky é entre a rendição agora, ou a rendição depois de mais 60.000 mortos.
Como sintetiza o coronel ucraniano Oleksiy Hetman: “Estamos trocando os vivos que sobraram pelos mortos que caíram. Isso não é paz, é contabilidade de guerra.”
Última Linha
Enquanto a Rússia planeja sua ofensiva de verão sobre Kharkiv, a Ucrânia enterra seus filhos e sua soberania, não por vontade própria, mas porque os aliados da OTAN decidiram que uma nação terceirizada na guerra contra a Rússia, não merece vencer, quiçá sobreviver.
Imagem Destacada: Negociações diretas entre as delegações da Rússia e da Ucrânia no Palácio Ciragan em Istambul/Foto: RIA Novosti/Alexander Ryumin
Fontes
1– https://ria.ru/20250602/memorandum-2020541085.html
9– https://observador.pt/liveblogs/negociadores-russos-e-ucranianos-juntos-de-novo-em-istambul/
10– https://velhogeneral.com.br/2025/02/13/guerra-da-ucrania-perspectivas-para-2025/