- por Marcos Gimenez
- on 03/04/2025
Moscou Avisa: Usina Nuclear de Zaporizhzhia é Nossa!
A brisa que sopra sobre o rio Dnipro, na Ucrânia, já não carrega apenas o cheio de terra molhada e história, agora, traz também o peso de uma disputa que pode redesenhar o mapa da Europa.
Em Moscou, nesta terça-feira (25/03/2025), o Ministério das Relações Exteriores russo encerrou qualquer esperança de negociação sobre o destino da Usina Nuclear de Zaporizhzhia com uma declaração seca, quase um decreto celestial: a maior usina da Europa é, segundo eles, “propriedade russa, ponto final”.
A frase, curta e afiada como um golpe de Estado, não deixa margem para interpretações. Mas como toda afirmação absoluta, esconde mais do que revela. Zaporizhzhia, hoje um colosso adormecido com seus seis reatores silenciosos, tornou-se o palco de uma guerra dentro da guerra, onde tanques deram lugar a documentos e, balas foram substituídas por acusações cruzadas.
Do outro lado do Atlântico, uma proposta ecoava como um trovão distante. Donald Trump, em sua característica mistura de pragmatismo e audácia, sugerira dias antes ao presidente ucraniano Volodymyr Zelenskiy que os EUA poderiam “administrar”, quem sabe até “possuir”, as usinas nucleares do país. A ideia, recebida em Kiev com um misto de horror e desdém, soava como um remédio amargo: após anos de sangue derramado, a Ucrânia agora deveria entregar suas joias da coroa a um novo pretendente?
Enquanto isso, nos corredores da ONU, os monitores do Organismo Internacional de Energia Atômica (OIEA) assistem a tudo com a impotência de médicos diante de um paciente que se recusa a ser tratado. A usina, que já foi orgulho tecnológico da Ucrânia soviética, hoje é um fantasma, não produz mais eletricidade, mas seu simbolismo energiza as ambições de três nações.
Os russos, é claro, jogam xadrez enquanto todos parecem presos no jogo da velha. Anexaram Zaporizhzhia e dominam 1/5 da Ucrânia. Com armas, com mobilizações, com estratégias, Vladimir Putin mantêm-se firme, está ganhando. Referendos, a cartilha do “fato consumado”, um manual que Moscou conhece e o usa com maestria.
Mas e a Ucrânia? Zelenskiy, cuja habilidade política se viu na reunião desastrosa com Trump, na Casa Brancam, só é superada por sua teimosia, já deu a resposta: “As usinas são do povo ucraniano”. Uma afirmação simples, quase ingênua, esquecendo-se que está perdendo a guerra e territórios. Seus aliados estão sem dinheiro, poucas armas pesadas, também sem as leves, munição escassa e, os líderes são confrontados por seus eleitores que já se cansaram da guerra e de financiá-la.
Enquanto escrevo esta análise, lembro-me de uma frase do poeta ucraniano Taras Shevchenko: “A verdade mora não no que é dito, mas no que é silenciado”. E o silêncio mais estrondoso em Zaporizhzhia é este: ninguém fala sobre o que realmente acontecerá quando (e não “se”) a usina for religada. Será o suficiente para iluminar uma Ucrânia independente? Ou será a luz que guiará um novo império?
Por enquanto, só sabemos uma coisa: em 2025, a guerra não se mede mais apenas em quilômetros conquistados, mas em megawatts controlados. E nessa equação, Zaporizhzhia é a variável que pode queimar todos os cálculos.
Imagem Destacada: A usina mais próxima é a Usina Nuclear de Zaporizhzhia, a maior usina nuclear da Europa, consistindo de duas torres de resfriamento (uma amplamente obscurecida pela outra) à esquerda e 6 edifícios de reatores VVER. O grande edifício entre as torres de resfriamento e os reatores, e as duas altas chaminés, estão na usina termelétrica de Zaporizhzhia, a cerca de 3 km além da usina nuclear- Créditos: (Gambar Wikipédia)
Fonte:
https://www.reuters.com/world/europe/zaporizhzhia-nuclear-plant-stay-russian-control-moscow-says-2025-03-25/