- por Marcos Gimenez
- on 04/06/2025
Declaração de Wadephul sobre a guerra na Ucrânia expõe crise estratégica do Ocidente e pressão nuclear russa, enquanto governo Merz amplia gastos militares em meio a frágeis alianças internas
ANÁLISE:
Falando Sério!
Em entrevista explosiva ao jornal Süddeutsche Zeitung, o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Johann Wadephul, admitiu pela primeira vez que a derrota militar da Rússia na Ucrânia é “impossível” devido ao seu arsenal nuclear, enterrando a narrativa ocidental de “vitória estratégica” contra Moscou. A declaração, que defende uma solução negociada, ocorre enquanto o chanceler Friedrich Merz liberta ataques ucranianos com mísseis alemães e anuncia € 5,2 bilhões em novo armamento para Kiev, aprofundando a contradição política no coração da Europa.
O Terremoto Estratégico
Fim da Fantasia Bélica: Wadephul declarou que “uma derrota completa, no sentido de capitulação da Rússia, detentora de armas nucleares, não poderia ser esperada”, reconhecendo o risco de escalada atômica. O tom contrasta com as promessas anteriores de EUA, França e Reino Unido de “esmagar” Moscou.
Realpolitik Emergente: A frase “agora nos tornamos um pouco mais honestos” revela o desespero alemão diante do fracasso da contraofensiva ucraniana em 2024-2025, com perdas territoriais e esgotamento militar. O objetivo agora é “posição de negociação forte” para Kiev, não vitória.
O Jogo Duplo de Berlim
Apostando em Duas Frentes: Enquanto Wadephul fala em paz, Merz:
. Suspendeu restrições para ataques ucranianos em solo russo com mísseis alemães;
. Estuda enviar foguetes Taurus (500 km de alcance, capazes de atingir Moscou);
. Injetou € 5,2 bi na produção bélica ucraniana [citacao:1][citacao:6].
Risco Histórico: O ministro russo Sergey Lavrov alertou que a Alemanha repete “a ladeira escorregadia do século XX em direção ao seu próprio colapso”, lembrando os erros que levaram a duas guerras mundiais.
A Crise Doméstica Alemã
Governo à Beira do Abismo: A declaração ocorre após Merz sofrer uma derrota inédita na votação para chanceler, com 310 votos (6 abaixo do necessário), expondo a fratura da coalizão “preto vermelha” (CDU/CSU + SPD).
Ascensão da Extrema-direita: Com 20.5% dos votos, o partido neonazista AfD tornou-se a segunda força no Parlamento, pressionando Merz a endurecer políticas migratórias e flertar com o discurso antissemita, enquanto protestos massivos alertam: “Somos a barreira de fogo!”.
O Tabu Nuclear e a Nova Corrida Armamentista
O Fantasma Atômico: Wadephul explicitou o medo oculto da OTAN: o poder nuclear russo (6.255 ogivas) como “red line” intransponível. A Rússia atualizou sua doutrina em 2024, autorizando ataques nucleares táticos se a soberania for ameaçada.
Reindustrialização Bélica: A Alemanha planeja gastar € 500 bilhões até 2035 para reforçar as Forças Armadas (Bundeswehr), transformando-se na “espinha dorsal militar da UE”. O objetivo: reduzir dependência dos EUA após ameaças de Trump de abandonar a OTAN.
A Diplomacia do Paradoxo
Crise de Credibilidade: Enquanto Merz apoia Israel incondicionalmente (“razão de Estado”), rejeitando acusações de genocídio em Gaza, ele pressiona por condenações à Rússia, expondo incoerência que alimenta o Sul Global.
Divisão Global: A Alemanha apoiou o congelamento de € 300 bi em ativos russos para reconstruir a Ucrânia, mas países como Brasil, África do Sul e Arábia Saudita rejeitam a medida como “neoimperialismo”.
Conclusão
O Preço do Realismo
A declaração de Wadephul é um marco na geopolítica pós-Guerra Fria: pela primeira vez, uma potência ocidental admite publicamente os limites do poder militar diante de uma Rússia nuclear. Mas o governo Merz, frágil e dividido, optou por uma rota perigosa: reforçar a guerra para buscar paz, arriscando uma escalada catastrófica. Seu plano de “paz armada” depende de três pilares falhos: uma coalizão doméstica esfacelada, uma Europa militarizada sem liderança unificada e a esperança de que Putin aceite negociações enquanto é bombardeado.
Como alertaram manifestantes em Berlim com retratos de Merz ao lado de Franz von Papen (o conservador que abriu caminho para Hitler em 1933), a história alemã ensina: quando o realismo vira cinismo, o colapso é questão de tempo. A admissão de Wadephul pode ser o primeiro passo para evitar esse abismo – ou o último antes dele.
Imagem Destacada: Ministro das Relações Exteriores da Alemanha – Foto: Sven Teschke / Lizenz: Creative Commons CC-by-sa-3.0 de
Fonte:
Derrotar a Rússia é impossível, diz ministro das Relações Exteriores alemão